Um cadáver de 847 anos, doze herdeiros e um computador quântico em forma de pinguim parecem, à primeira vista, matéria para uma repartição que perdeu o direito de usar carimbos. É justamente aí que os autores de humor fantástico começam a trabalhar: não no impossível em si, que já chega bastante ocupado, mas na papelada que ele produz.
O dragão é administrável. O que exige preparo é descobrir quem assina a autorização para removê-lo do estacionamento, em quantas vias e se a criatura conta como veículo, animal silvestre ou patrimônio histórico. O humor fantástico não trata o absurdo como uma interrupção da realidade. Trata-o como realidade submetida a uma regra excessivamente específica.
Minha posição, que certamente causará danos a algumas prateleiras, é simples: os melhores autores do gênero não escrevem apenas para fazer rir. Eles usam o riso como um instrumento de medição. Onde a vida humana se tornou contraditória, solene demais ou burocraticamente desalmada, o fantástico introduz uma criatura impossível e aguarda o formulário reagir.
O que os autores de humor fantástico entendem
Fantasia cômica não é fantasia épica com uma banana escorregadia no capítulo três. Também não é uma sucessão de referências destinadas a tranquilizar o leitor de que ele pertence ao grupo que reconheceu a referência. Seu mecanismo mais eficiente é outro: estabelecer uma premissa estranha, levá-la a sério e permitir que as consequências revelem o ridículo de hábitos perfeitamente terrestres.
Douglas Adams compreendeu que o cosmos fica mais engraçado quando administrado por instituições que não sabem onde arquivaram o planeta. Terry Pratchett percebeu que uma cidade cheia de trolls, bruxas e anões continua precisando de guardas, recibos, sindicatos e gente tentando trabalhar apesar do fim iminente do mundo. Kurt Vonnegut, por sua vez, levou a lógica técnica e militar até o ponto em que ela passa a emitir um ruído moral bastante reconhecível.
O parentesco entre eles não está no tipo de piada, nem na quantidade de naves, feitiços ou catástrofes. Está na recusa de tratar a explicação racional como garantia de sensatez. Uma regra pode ser perfeitamente coerente e ainda assim produzir uma calamidade social. Aliás, esse é o talento particular de muitas regras.
O autor de humor fantástico precisa, portanto, de disciplina. Parece injusto, mas é assim. Quanto mais absurda a situação, mais nítido deve ser o sistema que a sustenta. Se um fantasma pode votar em assembleias de condomínio, o leitor precisa saber se ele paga taxa extra, se possui procuração e se é obrigado a ouvir o áudio de oito minutos enviado pelo síndico. A resposta não precisa aparecer inteira. Mas o autor deve conhecê-la, ou o fantasma vira decoração.
A ciência não é figurino
Há uma diferença relevante entre usar ciência como lustre de nave espacial e usar ciência para apertar o parafuso da comédia. A segunda opção costuma render melhores acidentes.
Um fato útil: a segunda lei da termodinâmica estabelece que a entropia de um sistema isolado não diminui. Em termos menos ameaçadores, sistemas isolados não se organizam espontaneamente sem custo ou troca de energia. Uma cozinha após um jantar fornece demonstração experimental suficiente, embora revisada por familiares pouco imparciais.
Instituições humanas não são sistemas isolados, evidentemente. Recebem energia, informação, café e e-mails com o assunto “urgente”. Mesmo assim, a entropia oferece uma boa imagem para o humor fantástico: toda tentativa de organizar uma situação complexa cria novas categorias, exceções e formulários. A ordem não desaparece. Ela muda de pasta e passa a exigir senha.
É por isso que a ciência real funciona tão bem no gênero quando é tratada com respeito. Ela impõe limites. Limites produzem consequência, e consequência produz comédia mais durável do que uma ocorrência aleatória. Se uma máquina do tempo exige energia demais, alguém tentará requisitar verba. Se uma espécie alienígena enxerga luz infravermelha, ela terá opiniões práticas sobre aquecedores e cortinas. O detalhe científico não mata a graça. Ele dá ao absurdo um lugar onde apoiar os cotovelos.
O procedimento do absurdo burocrático
Existe um equívoco recorrente: achar que burocracia, em ficção, é apenas cenário de piada. Não é. Ela é uma lente moral particularmente eficiente porque transforma pessoas em casos, eventos em protocolos e aflição em pendência.
Isso não significa que todo funcionário seja um vilão, nem que todo procedimento seja inútil. Seria uma tese preguiçosa, e eu já tenho trabalho suficiente classificando preguiças que se apresentam como teses. Processos existem porque vidas complexas precisam de critérios, memória e alguma previsibilidade. O problema começa quando o processo conserva sua própria elegância depois de perder contato com a finalidade humana que o justificava.
No humor fantástico, esse desvio fica visível depressa. Um departamento encarregado de registrar mortes pode descobrir que a morte deixou de ser definitiva. Um inventário pode incluir luas, consciências digitalizadas ou uma cadeira que insiste ser coproprietária. A administração continua falando em prazos, assinaturas e anexos. O leitor ri porque reconhece o gesto: diante de uma realidade que não cabe na ficha, a primeira reação institucional é pedir uma ficha maior.
Esse mecanismo exige cuidado. Se tudo é absurdo o tempo todo, nada pesa. Uma criatura com sete bocas perde impacto se todos os personagens também flutuam, falam em código e explodem em confete a cada parágrafo. A comédia precisa de uma superfície estável. Alguém deve querer cumprir o horário. Alguém deve se preocupar com a herança. Alguém precisa perguntar, com tristeza genuína, quem ficará responsável pelo animal de estimação telepático.
A dor, aliás, não atrapalha o humor. Ela impede que o humor seja apenas espuma. Uma família em conflito por causa de um testamento não se torna menos humana porque o falecido viveu oito séculos ou porque o executor é uma ave computacional de procedência administrativa duvidosa. Pelo contrário: o exagero retira as desculpas decorativas. Restam ciúme, afeto, culpa, memória e a pequena ambição de não ser o parente mais constrangedor da cerimônia.
O que separa a sátira da crueldade
O alvo mais produtivo do humor fantástico é uma ideia que se julga razoável demais: eficiência sem escuta, tradição sem exame, tecnologia sem responsabilidade, mérito medido por tabelas que ninguém consegue explicar. Pessoas sofrem dentro desses mecanismos, mas não precisam ser tratadas como alvos fáceis.
A diferença é decisiva. Rir de alguém que perdeu o controle da própria vida costuma ser só preguiça com bom timing. Rir da engrenagem que prometeu ajudá-la e entregou um protocolo de 46 páginas pode revelar alguma coisa. A literatura não precisa ser um tribunal, mas deve saber onde colocou a lâmpada.
Pratchett fazia isso com notável economia: suas cidades e instituições são ridículas, porém seus habitantes raramente são reduzidos à própria tolice. Adams frequentemente deixava a escala cósmica tornar minúsculas certas pretensões humanas, sem afirmar que os humanos fossem dispensáveis. O humor nasce da proporção errada entre o problema e a resposta. A ternura entra quando percebemos que, mesmo assim, alguém continuará tentando resolver o problema antes do almoço.
Em A Saga de Zephyrus, a existência de um computador quântico encarregado de organizar luto e sucessão não torna o luto menos sério. Torna apenas mais evidente a insolência de imaginar que um sistema, por sofisticado que seja, poderia converter uma família em um conjunto de campos obrigatórios. Ele tentará. Sistemas têm essa autoestima.
Por que esse gênero permanece necessário
O fantástico permite afastar a câmera. Quando uma sociedade é vista por olhos alienígenas, por mortos loquazes ou por máquinas que interpretam condolências como dados incompletos, seus costumes ficam estranhos outra vez. Essa estranheza é valiosa. Ela devolve perguntas que a rotina havia colocado na gaveta dos assuntos encerrados.
Mas o afastamento tem limite. Se o autor foge demais do reconhecível, o leitor admira a invenção e não encontra onde pousar. Se fica perto demais, produz realismo com um capacete luminoso. O trabalho está em dosar distância e reconhecimento. Depende da história, da voz e do tipo de ferida que ela pretende examinar. Não há tabela confiável para isso, o que é inconveniente para mim e excelente para a literatura.
Um bom humor fantástico não pede que aceitemos o impossível. Ele pede que olhemos de novo para o possível, especialmente para aquilo que passamos a chamar de normal por falta de energia para contestar. Essa é uma aplicação bastante econômica do espanto: conservar a imaginação sem abandonar a responsabilidade pelo que ela vê.
Quando a realidade apresentar uma situação sem saída, talvez valha a pena perguntar não apenas quem causou o problema, mas qual formulário ele preencheria e quem teria a audácia de aprová-lo. Qual absurdo cotidiano, na sua experiência, ficaria mais honesto se recebesse uma repartição interplanetária para administrá-lo?
