Um homem pode morrer aos 847 anos e ainda deixar uma papelada insuficiente. Este é, a meu ver, o ponto mais útil para pensar em Douglas Adams versus autores brasileiros: o absurdo não muda de país, mas muda de repartição, de família e de horário de atendimento.
A comparação costuma surgir como uma pergunta com aparência inocente: existe humor de ficção científica brasileiro na tradição de Adams? A resposta administrativa é sim, desde que “na tradição” não seja confundido com “usando a mesma toalha”. Influência não é transplante de órgão. É mais parecida com a transferência de um processo para outra mesa, onde ganha um carimbo novo, perde duas páginas e passa a exigir comprovante de residência interplanetária.
Douglas Adams construiu uma espécie de cosmologia do descaso. O universo dele é vasto, tecnologicamente extravagante e espantosamente incapaz de lidar com as necessidades básicas de quem acabou de perder o planeta. A escala cósmica não engrandece o ser humano. Ela apenas torna mais difícil encontrar o guichê correto.
No Brasil, o cosmos encontra concorrência séria. Temos uma longa convivência literária com o insólito doméstico, a instituição que funciona por regras não inteiramente acessíveis e a família como sistema de gravidade própria. Quando esses elementos entram em uma ficção científica cômica, o resultado não precisa imitar o humor britânico. Pode tratá-lo como um primo distante que trouxe uma hipótese interessante, mas esqueceu de reconhecer firma.
O absurdo tem nacionalidade administrativa
A principal diferença entre Douglas Adams e autores brasileiros não está em quem faz piadas mais absurdas. Absurdo é um recurso internacional, como fila, mofo e a tendência humana de preencher campos obrigatórios com informações que ninguém lerá. A diferença está no que cada tradição reconhece como plausível antes de começar a rir.
Em Adams, um aviso público pode ser colocado em um porão obscuro, sem iluminação, atrás de uma porta com a advertência de que há um leopardo. Isso é uma sátira da administração como máquina indiferente, perfeitamente capaz de cumprir uma obrigação de modo inútil. O leitor reconhece a lógica, ainda que preferisse não reconhecê-la.
No imaginário brasileiro, a burocracia frequentemente tem outra textura. Ela não é somente distante: é íntima. Ela sabe o nome da mãe, pede uma cópia autenticada de um documento emitido pelo próprio setor e, em circunstâncias especiais, informa que o sistema caiu no momento exato em que você finalmente trouxe tudo. Não se trata de afirmar que um país monopoliza a desorganização humana. Seria uma tese estatisticamente imprudente. Trata-se de observar que cada cultura tem seus rituais para transformar uma ação simples em narrativa de sobrevivência.
Por isso, a ficção científica cômica brasileira pode encontrar matéria em uma herança impossível, em parentes que jamais se viram, em cartórios futuros, em registros que se contradizem e em tecnologias obrigadas a interpretar afetos. Em A Saga de Zephyrus, por exemplo, o problema sucessório não aparece como decoração para naves espaciais. Ele é o motor do desastre, o que é juridicamente mais eficiente.
O Código Civil brasileiro estabelece, no artigo 1.784, que a herança se transmite aos herdeiros no instante da morte. Esse princípio é conhecido como saisine. A morte, portanto, tem a cortesia legal de produzir efeitos imediatos. A família, em geral, leva mais tempo para aceitar o memorando.
Douglas Adams versus autores brasileiros: herdar não é viajar
A ficção de Adams costuma começar quando a normalidade é removida do chão sob os pés do personagem. Uma casa, um planeta, uma certeza razoável sobre o café da manhã: tudo pode desaparecer antes da segunda página. O protagonista segue adiante porque não há alternativa e porque o universo não demonstrou interesse em ouvir sua reclamação formal.
Em muitos autores brasileiros que trabalham com o estranho, a operação pode ser inversa. O insólito não expulsa necessariamente o cotidiano. Ele se instala nele. Murilo Rubião fez do fantástico uma presença de frase limpa e consequência perturbadora; José J. Veiga observou comunidades submetidas a lógicas que parecem normais até se revelarem inteiramente impraticáveis; Braulio Tavares aproximou especulação, linguagem e humor com ouvido atento para a inteligência do leitor. Não são equivalentes entre si, muito menos versões nacionais de alguém. São coordenadas de uma conversa maior.
Essa conversa importa porque o humor especulativo brasileiro não precisa pedir licença para existir entre duas etiquetas importadas. Ele pode ser cosmopolita sem ser genérico. Pode lidar com planetas, inteligência artificial, tempo profundo e física teórica sem abandonar o desconforto de uma sala de inventário, a fala atravessada de um parente ou o mistério de uma certidão que prova algo impossível e, por isso mesmo, exige mais uma certidão.
Há uma diferença de escala emocional. Adams frequentemente reduz o sujeito diante da vastidão. A produção brasileira de humor absurdo pode reduzir o sujeito diante de algo mais próximo: a família, a linguagem, a regra local, a versão oficial de um acontecimento que todos presenciaram de modo diferente. Ambas as operações são cômicas. Só que uma pergunta onde está o planeta, e a outra pergunta quem assinou por ele.
O pinguim quântico e o problema da tradução cultural
Há também um equívoco recorrente: imaginar que ficção científica engraçada depende de inventar palavras estranhas, aparelhos com nomes extensos e civilizações que usam chapéus regulamentares. Esses itens ajudam, como ajuda ter uma chave de fenda quando se pretende desmontar um reator. Mas não são o reator.
A comédia nasce da precisão com que uma lógica é levada além do limite aceitável. Se uma máquina decide organizar o luto como processo, ela precisa ter critérios. Se há doze herdeiros, precisa haver conflito de competência, preferência, omissão e alguém que descubra tarde demais a existência de um anexo. O leitor ri porque reconhece que o procedimento faz sentido. Depois percebe que o sentido é o problema.
A ciência, quando entra nesse mecanismo, não deve ser tratada como figurino brilhante. Computadores quânticos reais não são computadores comuns que pensam mais depressa porque receberam partículas em estado de ânimo sofisticado. Eles exploram propriedades quânticas, como superposição e emaranhamento, mas sofrem intensamente com decoerência: a interação com o ambiente destrói os estados delicados necessários ao cálculo. É por isso que manter informação quântica estável é uma tarefa experimental difícil, não uma metáfora para “tecnologia muito avançada”.
Naturalmente, se uma inteligência quântica assume a forma de pinguim, a questão técnica mais urgente deixa de ser a decoerência. Passa a ser a manutenção da dignidade institucional diante de uma ave em traje formal permanente.
O humor brasileiro ganha força quando deixa a ciência permanecer ciência e permite que as pessoas sejam o elemento menos previsível da equação. Uma máquina pode calcular probabilidades familiares. Não pode impedir um herdeiro de surgir com uma lembrança seletiva, uma interpretação criativa do testamento ou uma opinião sobre quem merecia o sofá.
O que vale trazer de Adams, e o que convém deixar no formulário
Vale trazer de Douglas Adams a confiança no leitor, a disposição de levar uma ideia inútil até suas consequências e a suspeita saudável de que sistemas grandiosos frequentemente foram projetados por alguém que nunca precisou usá-los. Vale trazer também o ritmo: a frase que parece apenas registrar um fato e, no final, torna o fato administrativamente devastador.
Convém deixar no formulário a obrigação de reproduzir sua voz. O humor tem sotaque, mesmo quando fala de galáxias. No Brasil, uma narrativa pode encontrar absurdo em um inventário, em uma reunião de condomínio orbital, em um aplicativo estatal que exige reconhecimento facial de uma pessoa falecida ou em uma família que descobre possuir mais versões do passado do que documentos válidos para prová-las.
A melhor comparação, então, não pergunta se autores brasileiros conseguem ser “como Douglas Adams”. Pergunta o que acontece quando a inteligência cômica de Adams encontra materiais que ele não teve: nossas formas de parentesco, nossas instituições, nosso português capaz de transformar uma negativa em negociação e nosso convívio particularmente elaborado com o provisório.
O universo é indiferente. Uma família reunida para discutir herança raramente tem esse luxo.
Se você tivesse de escolher onde o absurdo se torna mais perigoso em uma história brasileira de ficção científica - no espaço profundo, em um inventário ou na conversa de família depois do café -, qual desses ambientes produziria o primeiro desastre documentável?
