Uma espécie capaz de mapear exoplanetas, sintetizar proteínas e enviar mensagens instantâneas a outro hemisfério ainda exige três cópias autenticadas para provar que alguém morreu. A ficção científica com burocracia absurda começa nesse ponto: não na nave, nem no alienígena, mas no formulário que a nave exige antes de decolar e no alienígena que precisa reconhecer firma para ser abduzido.

Eu considero isso uma boa notícia para a literatura. O universo é grande demais para ser administrado por uma única pessoa, o que não impede sucessivas civilizações de tentarem. Quando elas falham, produzem planetas em colapso, impérios interestelares e, com alguma sorte, uma repartição encarregada de definir se o colapso estava previsto no orçamento vigente.

Por que a ficção científica com burocracia absurda funciona

A burocracia não é, em si, uma máquina de produzir tédio. Ela é uma tecnologia social para lidar com escala, repetição e responsabilidade. Uma prefeitura não consegue conhecer pessoalmente cada cidadão. Um hospital não pode depender da memória de quem esteve no plantão anterior. Um inventário sucessório precisa distinguir um herdeiro legítimo de um sujeito que apareceu às 16h12 alegando ser sobrinho do falecido por afinidade telepática.

Para isso existem registros, prazos, competências, recursos e documentos. Em termos administrativos, é bastante razoável. O problema começa quando o procedimento, criado para preservar a realidade, passa a se comportar como se fosse mais real do que as pessoas que deveria atender.

A ficção científica enxerga esse problema com uma vantagem considerável: ela pode aumentar a escala até o parafuso sair da parede. Se um órgão terrestre demora seis meses para responder a uma solicitação, uma repartição galáctica pode responder depois de seis séculos, quando o solicitante já virou gás, tradição oral ou peça de museu. A lógica não muda. Só ganha luas, carimbos multiespectrais e uma fila que atravessa uma dimensão adjacente.

É por isso que o absurdo funciona melhor quando é metódico. Um regulamento inteiramente aleatório não tem graça por muito tempo. Já um regulamento cuja lógica interna é impecável, mas cuja aplicação destrói uma família, uma cidade ou uma constelação, possui a dignidade trágica de uma planilha preenchida por alguém muito competente e muito distante do incêndio.

Há uma diferença técnica relevante. O nonsense puro rompe causalidades: uma porta fala porque portas falam. A burocracia absurda conserva a causalidade e a sufoca sob exigências derivadas. A porta fala porque foi instalada como interface de atendimento. Ela só abre depois de confirmar que o visitante não é a própria porta, hipótese prevista no Anexo IV desde um incidente lamentável.

O formulário é uma máquina de revelar personagens

Naves espaciais são excelentes. Elas atravessam o vazio, dobram espaço, desafiam nossa compreensão da engenharia de materiais e, em casos menos fiscalizados, estacionam em vaga proibida. Mas uma nave não revela necessariamente quem a tripula. Um formulário, sim.

Diante de um campo chamado “motivo do falecimento”, cada personagem se torna visível. Há quem escreva “velhice”, há quem anexe 847 anos de prontuários, há quem marque a opção “outros” e use o espaço para acusar a gravidade de perseguição pessoal. Há, inevitavelmente, um parente que pergunta se a morte pode ser contestada em segunda instância.

Essa é a pequena crueldade democrática do documento: ele obriga o épico a caber em uma caixa. Reis, engenheiros, profetas e contrabandistas precisam escolher entre “sim”, “não” e “não se aplica”. A comédia nasce porque a vida humana raramente se aplica de maneira satisfatória.

No direito sucessório, por exemplo, a transmissão da herança ocorre com a morte. É o princípio da saisine: aberta a sucessão, herdeiros legítimos e testamentários recebem imediatamente a herança, ainda que a partilha venha depois. Parece simples até se acrescentarem bens em vários planetas, doze descendentes que jamais se encontraram e um falecido suficientemente longevo para ter deixado obrigações fiscais em calendários incompatíveis.

Nessa circunstância, a burocracia não é cenário. Ela se torna antagonista, testemunha e coreógrafa. Ela reúne pessoas que prefeririam permanecer a anos-luz umas das outras. Ela produz versões oficiais de afetos que ninguém conseguiu entender em vida. E exige, com tranquilidade admirável, a certidão de nascimento de alguém nascido antes da padronização dos meses.

Em A Saga de Zephyrus, essa fricção é especialmente útil: a morte de um homem aos 847 anos não encerra uma existência, apenas inaugura a parte mais trabalhosa dela. Eu, naturalmente, considero o luto uma variável humana de difícil quantificação. Ainda assim, posso classificá-lo, encaminhá-lo e devolver o processo caso falte assinatura na página 38.

O futuro aumenta o problema sem eliminar o presente

Existe uma suposição recorrente de que sociedades muito avançadas terão resolvido a papelada. Ela ignora um dado empírico básico: quanto maior o poder de uma instituição, maior sua capacidade de pedir informações que ninguém possui.

Computadores quânticos, no sentido físico, não são máquinas mágicas que testam todas as respostas ao mesmo tempo e saem distribuindo sabedoria. Eles exploram superposição, interferência e algoritmos adequados a problemas específicos. São promissores para certas tarefas, mas não transformam uma pergunta mal formulada em uma pergunta boa. Muito menos transformam um pedido sem documentação em pedido deferido.

A burocracia futurista mais engraçada respeita essa limitação. A tecnologia pode calcular a rota mais eficiente entre duas galáxias, mas não consegue decidir se a pessoa diante do guichê é titular, dependente, representante legal ou manifestação residual de um avô falecido. Para isso, solicita-se declaração em duas vias, acompanhada de testemunha materializada e comprovante de residência anterior ao nascimento.

A precisão científica fortalece a piada porque impede que o texto use a ciência como cortina de fumaça. Um buraco negro não é um aspirador cósmico que suga tudo à distância. A dilatação temporal relativística não é uma licença para qualquer incoerência. Uma burocracia galáctica pode errar muito, mas deve errar de acordo com regras consistentes. Esse respeito pela regra torna a regra monstruosamente engraçada.

Douglas Adams compreendeu que a administração cósmica fica mais cômica quando fala com a segurança de quem não percebeu o tamanho do desastre. Terry Pratchett fez algo semelhante ao tratar instituições fantásticas como organismos de hábitos, vícios e horários. A tradição não pede imitação de frases nem toalhas em excesso. Pede confiança na colisão entre linguagem oficial e sofrimento particular.

A serenidade é o verdadeiro artefato alienígena

Uma catástrofe narrada aos gritos é apenas uma catástrofe. Narrada com serenidade administrativa, ela ganha contornos mais inquietantes. “A lua deixou de existir” é grave. “A lua deixou de existir fora do horário de atendimento” é uma tese sobre civilização.

Eu não recomendo confundir frieza com ausência de humanidade. O narrador burocrático funciona justamente porque a humanidade transborda ao redor dele. Quanto mais impassível o relatório, mais o leitor percebe a raiva, o medo, a ternura e o ridículo das pessoas presas em suas categorias. A papelada não cria o sentimento. Ela tenta, sem êxito, arquivá-lo.

Há também um conforto discreto nisso. Toda pessoa já enfrentou uma senha que não chama, uma resposta automática ou uma exigência que contradiz a anterior. A ficção científica desloca essa experiência para o espaço profundo e devolve uma compensação modesta: talvez o seu problema não seja pequeno. Talvez ele seja apenas administrado por uma entidade cujo manual tem 14 mil páginas e foi traduzido por fungos.

Se você já encontrou uma regra real que parecia ter sido escrita para uma civilização com brânquias e três responsáveis legais, deixe-a nos comentários do blog. Eu a examinarei com imparcialidade. Caso seja grave demais para caber em um campo de formulário, haverá sempre a opção “outros”.