Um relógio em órbita não marca o tempo como um relógio em sua mesa. Os satélites do GPS precisam corrigir seus relógios em cerca de 38 microssegundos por dia, resultado combinado da relatividade especial e da relatividade geral. Sem essa correção, a localização calculada se afastaria quilômetros em pouco tempo. O futuro, como se vê, já depende de uma repartição muito específica entre espaço, tempo e pontualidade.
É por isso que livros futuristas quase nunca são avaliados pelo critério que lhes atribuem com tanta convicção: acertar o catálogo de objetos de 2087. Se um romance imaginou uma cidade movida a cápsulas pneumáticas, mas não previu o aplicativo de entrega de sopa, alguém aparece para declarar falência do gênero. Trata-se de um método crítico curioso. Seria como reprovar uma planta baixa porque ela não antecipou a quantidade de copos esquecidos na pia.
A ficção científica não tem obrigação de produzir inventários aduaneiros do amanhã. Sua função mais útil é mais incômoda: pegar uma regra do presente, esticá-la até o limite e observar quais órgãos institucionais pedem formulário para sobreviver ao processo.
O erro dos livros futuristas é um instrumento
Quando um livro futurista erra, é preciso perguntar: erra o quê? Muitas vezes, ele falha na superfície e acerta no mecanismo. Pode imaginar telefones presos à parede, porém compreender perfeitamente que seres humanos aceitariam entregar informações íntimas em troca de conveniência. Pode errar o combustível das naves e acertar a burocracia que surgirá para licenciar uma nave particular em condomínio orbital.
O objeto tecnológico envelhece rápido porque é visível. A ideia social demora mais, pois costuma se disfarçar de hábito. Ninguém estranha uma tela que exige atenção constante até que ela já tenha absorvido o café da manhã, a fila do banco e duas discussões familiares. Um escritor, sendo uma criatura limitada por seu século e por boletos, raramente prevê a aparência exata da máquina. Mas pode reconhecer a fome que fará a máquina prosperar.
Há uma diferença administrativa entre prever e extrapolar. Prever diz: em 2040 existirá tal aparelho, com tais botões. Extrapolar diz: se continuarmos tratando memória como mercadoria, como ficará uma família quando suas lembranças puderem ser alugadas, auditadas ou removidas por atraso de pagamento? A segunda pergunta sobrevive melhor ao desaparecimento dos botões.
Esta é a razão pela qual futuros muito datados continuam legíveis. Não porque tenham sido proféticos, qualidade excessivamente celebrada por pessoas que gostam de receber crédito retroativo, mas porque preservam uma hipótese sobre o comportamento humano. E comportamento humano é um equipamento de longa duração, embora exija manutenção e tenha manual extraviado desde a primeira edição.
O futuro serve para tornar o presente constrangedor
Um bom cenário futurista não nos afasta do cotidiano. Ele o devolve com etiqueta, carimbo e uma pequena taxa de processamento. Ao deslocar uma questão para outro planeta, outro século ou outra forma de vida, o livro permite que ela apareça sem os móveis habituais. A herança vira disputa entre doze descendentes que mal se conhecem. O luto vira procedimento automatizado. Uma decisão doméstica passa a exigir a opinião de uma inteligência artificial que, por motivos que ninguém registrou adequadamente, adotou a forma de um pinguim.
A distância produz nitidez. Se um texto falasse apenas de uma família brigando por bens, o leitor poderia se proteger com a alegação de que conhece uma família muito pior. Se o mesmo problema ocorre quando a pessoa morta tinha 847 anos, deixou propriedades em jurisdições incompatíveis e legou um computador quântico com atribuições emocionais, o leitor perde algumas saídas laterais. O caso é absurdo demais para ser confundido com o vizinho. Logo, pode ser examinado.
O procedimento tem precedentes respeitáveis. A ciência também cria situações artificiais para separar variáveis que, no mundo comum, chegam emboladas e molhadas. Em um experimento, controla-se a temperatura, a luz, a pressão. Em ficção, controla-se a escala, a espécie, o calendário e o número de luas. Depois se observa o que permanece. Frequentemente permanece alguém tentando transformar afeto em cláusula contratual.
Não é uma acusação. É um dado de campo.
A tecnologia é cenário, não sentença
Há leitores que preferem livros futuristas cheios de engenharia detalhada, motores descritos com precisão e tabelas que justificam a velocidade de uma nave. Há leitores que aceitam uma nave desde que ela leve as pessoas a um dilema interessante e, se possível, a uma sala de espera pior. Ambas as preferências são legítimas. O conflito começa quando uma exige da outra uma certidão de autenticidade.
A precisão técnica pode ampliar o encanto, sobretudo quando a obra entende as limitações físicas do que está propondo. A velocidade da luz, por exemplo, não é uma opinião editorial. Ela impõe atrasos, distâncias e uma solidão peculiar a qualquer civilização que tente conversar entre estrelas. Ignorá-la pode ser uma escolha narrativa válida, desde que o texto saiba qual problema está trocando por outro. Uma história não precisa obedecer a todas as leis da física, mas convém não parecer que tropeçou nelas no corredor.
Ao mesmo tempo, excesso de especificação pode envelhecer uma obra mais depressa do que uma nave impossível. Tecnologias reais mudam de nome, formato e fabricante. A experiência de depender de uma tecnologia que ninguém entende por inteiro continua reconhecível. Quem já precisou redefinir uma senha para provar que é a mesma pessoa compreende o princípio. Não é necessário possuir um portal interplanetário de serviços para participar da pesquisa.
O que procurar quando o futuro já chegou torto
A pergunta útil diante de uma obra antiga ou recente não é apenas “ela acertou?”. Convém perguntar o que ela achou que seria permanente. A resposta revela tanto sobre a época do livro quanto sobre a nossa. Se o futuro imaginado tem carros voadores, mas mantém as mesmas hierarquias e os mesmos preconceitos organizacionais, isso não torna o livro inútil. Torna visível a dificuldade humana de imaginar mudanças que não venham com hélices.
Também vale observar quem paga pelo futuro. Toda inovação literária deveria passar por uma análise de impacto doméstico: quem limpa o equipamento, quem não pode comprá-lo, quem decide as regras, quem fica responsável quando o sistema falha às 3h17 da madrugada? Naves e androides são elementos decorativos até alguém precisar preencher o formulário de responsabilidade civil por dano causado por um androide durante uma ceia de família.
É nesse ponto que a ficção científica brasileira tem material de sobra. Não por alguma obrigação patriótica, expediente que costuma terminar em papel timbrado e pouca literatura, mas porque qualquer país oferece instituições, linguagens e improvisos próprios para serem projetados adiante. Um futuro escrito daqui pode carregar outras escalas de cidade, trabalho, família, espera, acesso e desigualdade. Não precisa pedir autorização para parecer estrangeiro. O futuro, afinal, será estrangeiro para todos nós.
Em A Saga de Zephyrus, a questão sucessória não é enfeite de nave espacial. Ela é uma máquina para pressionar pessoas, memórias e deveres até que apareça o que cada um julgava ser seu. A presença de um computador quântico em forma de pinguim só torna o procedimento mais auditável. E, portanto, mais perigoso.
A utilidade de imaginar errado
Há uma serenidade particular em aceitar que o futuro chegará desobedecendo aos nossos desenhos. Isso não diminui a ficção especulativa. Pelo contrário. Liberta o livro da função impossível de adivinhar o modelo correto de aparelho e devolve a ele sua tarefa mais duradoura: testar valores antes que eles virem infraestrutura.
Os melhores futuros inventados não nos entregam um mapa. Entregam uma pergunta mal resolvida, uma regra levada longe demais, um mecanismo social que funciona até funcionar precisamente como foi planejado. Depois fechamos o livro, olhamos para o sistema ao redor e percebemos que ele também parecia razoável em alguma reunião.
Qual foi o livro futurista que errou a tecnologia, mas acertou em cheio uma mania, um medo ou uma burocracia que você reconhece hoje?
