A estante de ficção científica brasileira não sofre de falta de imaginação. Sofre de uma classificação preguiçosa, que costuma tratar autores brasileiros de ficção científica como uma nota de rodapé entre naves importadas, distopias com CEP estrangeiro e capas que parecem ter sido aprovadas por um comitê de meteoritos.
Eu discordo do procedimento. Com a serenidade de quem já processou doze inventários simultâneos, afirmo que a ficção científica produzida aqui não precisa provar que existe. Precisa apenas ser lida como literatura capaz de formular perguntas próprias sobre tecnologia, poder, memória, classe, território e o pequeno incidente administrativo chamado futuro.
O detalhe relevante é que futuros locais não são futuros menores. São futuros com burocracias reconhecíveis, sotaques, improvisos, instituições falhas e famílias que continuam discutindo a divisão de uma herança mesmo quando o planeta já apresentou sinais formais de encerramento.
Autores brasileiros de ficção científica não escrevem um só futuro
Existe uma tentação compreensível de procurar a essência nacional da ficção científica. Ela costuma render frases com muito brilho e pouca utilidade, como se um escritor tivesse de instalar uma palmeira na Lua para receber autorização de entrada no gênero.
A produção brasileira é mais interessante porque recusa esse formulário. Há histórias de exploração espacial, mundos devastados, inteligência artificial, viagens temporais, realidades paralelas, mutações, cidades hiperconectadas e passados que tomam medidas inaceitáveis para continuar presentes. Há também obras em que a especulação surge menos da máquina extraordinária do que da observação meticulosa de uma sociedade já bastante estranha em seu estado natural.
O precursor Augusto Emílio Zaluar é frequentemente lembrado por O Doutor Benignus, publicado em 1875. A classificação exata sempre admite discussão, atividade pela qual a espécie humana demonstra vocação alarmante. Ainda assim, o romance já combinava ciência, astronomia e uma ambição cósmica que impede qualquer versão confortável da história literária brasileira.
No século XX, autores como Jeronymo Monteiro, André Carneiro, Dinah Silveira de Queiroz e Rubens Teixeira Scavone ajudaram a tornar o campo reconhecível para leitores, editoras e críticos. André Carneiro, em particular, trabalhou com uma ficção científica de grande concisão e estranhamento, na qual o futuro não comparece para distribuir equipamentos brilhantes. Comparece para desorganizar certezas íntimas, que é um uso bem mais eficiente da tecnologia.
Dinah Silveira de Queiroz publicou Eles Herdarão a Terra em 1960. O título, por si só, já contém um aviso sucessório de proporções planetárias. Quem herdará o quê, em que condições e após qual catástrofe são perguntas que a ficção científica trata melhor do que muitos departamentos encarregados de responder a elas em documentos de 46 páginas.
O Brasil entra na história sem pedir licença
Há quem procure ficção científica brasileira apenas quando ela exibe um elemento imediatamente identificável: uma cidade conhecida, um órgão público, uma referência histórica, uma gíria. Esses elementos podem ser ótimos, mas não são carimbo de autenticidade. Um autor brasileiro não deixa de sê-lo ao escrever sobre outro planeta, assim como um astronauta não deixa de ter boleto porque saiu da atmosfera.
O que muda é o ponto de observação. Toda ficção científica nasce de uma pergunta sobre o presente e projeta suas consequências para uma distância segura, onde o leitor pode examiná-las sem admitir de imediato que se reconheceu no experimento. No Brasil, esse presente inclui desigualdades persistentes, urbanização acelerada, relações ambíguas com a ciência, circulação desigual de infraestrutura e uma experiência cotidiana de adaptação que torna o improvável menos improvável.
Isso não obriga a literatura a ser sociologia disfarçada de romance. Ao contrário. A melhor especulação não entrega um relatório com personagens anexados. Ela cria uma situação tão precisa que o leitor percebe, tarde demais, que aceitou discutir uma questão séria enquanto acompanhava um elevador consciente, uma epidemia improvável ou um processo de herança conduzido por uma entidade sem paciência para parentes.
A ciência disponível no território também importa. O satélite CBERS-4A, fruto da cooperação entre Brasil e China, foi lançado em dezembro de 2019 e produz imagens usadas para observar áreas terrestres. Não é uma metáfora. É uma máquina em órbita, registrando um país vasto demais para caber na impressão apressada de que o futuro sempre chega embalado de fora.
Quando a ficção científica brasileira usa satélites, redes, biotecnologia ou sistemas de vigilância, ela não está apenas importando decoração futurista. Está lidando com tecnologias que atravessam trabalho, clima, agricultura, comunicação e controle do território. O fato científico é sóbrio. A aplicação humana, como de hábito, merece supervisão.
Da tradição ao atrito contemporâneo
A geração atual ampliou o arquivo do gênero sem pedir uniformidade estética. Fábio Fernandes trabalha a ficção especulativa com atenção à linguagem e às formas de colapso social. Roberto de Sousa Causo atua como ficcionista, pesquisador e organizador de memória crítica do campo. Gerson Lodi-Ribeiro explora, entre outras vertentes, a história alternativa, esse ramo dedicado a demonstrar que o passado já era suficientemente imprudente sem nossa ajuda.
Outras vozes deslocam ainda mais o centro do mapa. Fábio Kabral associa imaginação afrofuturista, tecnologia e experiências urbanas em narrativas que recusam a ideia de que certos corpos só podem aparecer no futuro como estatística. Lu Ain-Zaila constrói especulações em que memória, ancestralidade e resistência entram na equação sem serem reduzidas a ornamento. Ale Santos, em O Último Ancestral, formula uma aventura de escala ampla a partir de referências afro-brasileiras e de uma pergunta incisiva sobre quem terá o direito de narrar o amanhã.
Não se trata de montar um panteão definitivo. Panteões tendem a virar repartições com senha preferencial e pouca circulação de ar. Trata-se de entender que a variedade não é uma fase de expansão provisória do gênero. É a sua condição normal.
O humor também é tecnologia especulativa
Há uma reserva particular contra a comédia em ficção científica, como se o gênero precisasse permanecer de jaleco, olhando com gravidade para uma tela azul. Uma medida inadequada. O humor é uma ferramenta de precisão para examinar sistemas absurdos, especialmente os sistemas que se consideram perfeitamente racionais.
Douglas Adams e Terry Pratchett demonstraram isso em tradições diferentes: rir de uma estrutura não é negar sua força, mas revelar suas dobradiças. A comédia de ficção científica funciona quando trata o ridículo com seriedade suficiente para deixá-lo falar. Um formulário interplanetário, uma máquina que administra luto ou uma família em guerra por um patrimônio impossível podem dizer mais sobre autoridade e desamparo do que uma palestra inteira, desde que ninguém interrompa a história para apontar o mecanismo.
É nesse terreno que uma obra como A Saga de Zephyrus encontra parentesco de método, não de imitação: o futuro serve para tornar a catástrofe administrável por alguns parágrafos, até que a condição humana reapareça sem carimbo e sem recurso.
A leitura dos autores brasileiros de ficção científica ganha força quando abandona duas exigências infantis: que toda obra represente o país inteiro e que todo futuro seja reconhecível antes da página vinte. Nenhum país cabe em uma estante, embora muitas editoras tenham tentado resolver o problema com etiquetas.
Uma boa porta de entrada é seguir a própria curiosidade, não uma escala imaginária de importância. Quem prefere ficção de ideias pode começar por autores que tensionam ciência e linguagem. Quem busca distopias pode procurar futuros de vigilância, escassez e desigualdade. Quem quer humor tem o direito constitucional, ainda que não escrito, de procurar narrativas em que a realidade seja submetida ao devido constrangimento.
O arquivo está aberto, embora nem sempre bem catalogado. Sua tarefa, leitor, é levemente melhor do que preencher uma ficha: escolher qual futuro brasileiro já lido pareceu mais verdadeiro justamente por ser impossível, e defender sua escolha com a imprudência razoável dos comentários.
