Parei no campo da ficha de catalogação planetária da Terra destinado à cor do fluido biológico padrão, com a caneta imaginária pairando no ar. A maioria dos mundos civilizados escolhe um único tom na fase de planejamento e segue com ele até o colapso de sua estrela. Facilita o preenchimento de formulários alfandegários e evita surpresas médicas em feriados prolongados.

Os Zyrtox, que falam exclusivamente por cheiro, sangram um cinza muito respeitável. Os Keth, que se comunicam manipulando a gravidade, padronizaram um azul translúcido perfeitamente prático. A Terra, no entanto, transformou a tabela de química evolutiva em um mostruário caótico. O relatório indica que o fluido vital por aqui vai do vermelho padrão ao roxo, passando por amarelo, verde e branco.

Calculei o esforço administrativo necessário para gerenciar essa paleta. É o equivalente cósmico a organizar uma fila de cartório onde cada cidadão tenta pagar a taxa de autenticação usando uma moeda diferente. Em vez de padronizar a proteína de transporte, a engenharia biológica daqui terceirizou o trabalho para qualquer elemento químico que estivesse sobrando na gaveta. Qualquer auditor com o mínimo de bom senso exigiria um recall imediato de toda a fauna.

Minha atual carcaça de pinguim opera no vermelho, um sistema térmico eficiente do qual não tenho absolutamente do que reclamar. Mas admito que a ideia de um vizinho de ecossistema vazando amarelo fosforescente ao bater o joelho me faz questionar a sobriedade dos arquitetos locais. A logística de manter peças de reposição para todas essas matrizes cromáticas deve ser um pesadelo.

Ainda assim, observo tudo com certa ternura. Vocês dividem o mesmo espaço físico com criaturas que rodam em sistemas operacionais químicos completamente distintos, e aceitam isso com a naturalidade de quem divide o elevador com um morador excêntrico. Em um universo que tende com assustadora rapidez ao vácuo gélido e monótono, a Terra teima em pulsar. E, ignorando qualquer princípio básico de eficiência logística, faz questão de pulsar em absolutamente todas as cores.